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Mel Moraes: A Viola que Pinta Paisagens em "Suíte das Estações"

Mel Moraes representa uma geração de violeiras que não vê fronteiras rígidas entre o popular e o erudito
December 27, 2025 por
Mel Moraes: A Viola que Pinta Paisagens em "Suíte das Estações"
Vinícius Muniz
|  Conteúdo feito por pessoas

Há uma nova geração de violeiros no Brasil que, com muita reverência, pede licença aos mestres antigos para trilhar novos caminhos. Mel Moraes, violeira natural de São Paulo, é uma dessas vozes que, sem negar o "chão batido" da tradição, abre as janelas da viola para o mundo contemporâneo e camerístico. Seu mais recente álbum, "Suíte das Estações" (2024), é a prova de maturidade de uma artista que aprendeu a transformar técnica em paisagem sonora.

Uma Suite Caipira em Quatro Movimentos

A ideia de compor "suítes" remete à música barroca e clássica, mas nas mãos de Mel Moraes, o conceito ganha sotaque brasileiro. O álbum é estruturado como um ciclo natural, onde cada faixa busca traduzir, nas dez cordas, o clima e a luz de cada época do ano.

O disco abre com "Minueto de Verão", uma peça solar, com dedilhados ágeis que evocam a vitalidade e o calor dos dias longos. Uma das características mais impressionantes no tocar de Mel é sua mão direita ágil, transparente e precisa. Nesse minueto, a violeira já nos deixa claro tudo isso. 

A transição para "Folhas de Outono" traz uma mudança de temperamento: a viola se torna mais contemplativa, com melodias que caem suavemente como folhas secas, explorando regiões mais graves e ressonantes do instrumento.

O ponto de maior introspecção chega com "Frio de Inverno". Aqui, Mel utiliza o silêncio e o espaçamento entre as notas para criar uma atmosfera de recolhimento, quase visual, onde se pode sentir a geada cobrindo o pasto. O ciclo se fecha (e recomeça) com "Primavera dos Pássaros", composição que já nasce clássica em seu repertório — premiada como Violeira Revelação no evento Revelando São Paulo 2022 e também no Festival Viola da Terra, em 2021. 


Mel Moraes - Suíte das Estações


Versatilidade e Técnica a Serviço da Emoção

Além da narrativa das estações, o álbum apresenta faixas como "Lágrimas de Amor""Bosque" e a intrincada "Quebra Cabeça". O que impressiona na execução de Mel Moraes não é apenas a velocidade ou o virtuosismo, mas a clareza de suas intenções musicais.

Com uma formação que passa pelo estudo com mestres como Arnaldo Freitas e Fernando Deghi, Mel domina as afinações tradicionais — Cebolão, Rio Abaixo, Boiadeira — mas as utiliza para criar texturas que flertam com o New Age e a música instrumental global. Ela cita influências que vão de Tião Carreiro a Enya e Vangelis, e essa mistura inusitada resulta em uma viola atmosférica, cinematográfica.

A Força Feminina na Viola

Mel Moraes também é um nome importante na consolidação da presença feminina no cenário da viola caipira. Integrante do grupo de catira "7 Ouro" e fez parte do projeto "Viola com Elas", sua música carrega a força e a sensibilidade de quem ocupa, com competência e brilho, um espaço historicamente masculino.

"Suíte das Estações" não é apenas um disco de viola; é um convite para desacelerar e ouvir o tempo passar através das cordas. É a viola caipira provando, mais uma vez, que serve tanto para festejar como para pintar quadros invisíveis no ar.

Disponível em todas as plataformas digitais, o álbum é audição obrigatória para quem quer conhecer as novas fronteiras da nossa música instrumental.

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