Há uma nova geração de violeiros no Brasil que, com muita reverência, pede licença aos mestres antigos para trilhar novos caminhos. Mel Moraes, violeira natural de São Paulo, é uma dessas vozes que, sem negar o "chão batido" da tradição, abre as janelas da viola para o mundo contemporâneo e camerístico. Seu mais recente álbum, "Suíte das Estações" (2024), é a prova de maturidade de uma artista que aprendeu a transformar técnica em paisagem sonora.
Uma Suite Caipira em Quatro Movimentos
A ideia de compor "suítes" remete à música barroca e clássica, mas nas mãos de Mel Moraes, o conceito ganha sotaque brasileiro. O álbum é estruturado como um ciclo natural, onde cada faixa busca traduzir, nas dez cordas, o clima e a luz de cada época do ano.
O disco abre com "Minueto de Verão", uma peça solar, com dedilhados ágeis que evocam a vitalidade e o calor dos dias longos. Uma das características mais impressionantes no tocar de Mel é sua mão direita ágil, transparente e precisa. Nesse minueto, a violeira já nos deixa claro tudo isso.
A transição para "Folhas de Outono" traz uma mudança de temperamento: a viola se torna mais contemplativa, com melodias que caem suavemente como folhas secas, explorando regiões mais graves e ressonantes do instrumento.
O ponto de maior introspecção chega com "Frio de Inverno". Aqui, Mel utiliza o silêncio e o espaçamento entre as notas para criar uma atmosfera de recolhimento, quase visual, onde se pode sentir a geada cobrindo o pasto. O ciclo se fecha (e recomeça) com "Primavera dos Pássaros", composição que já nasce clássica em seu repertório — premiada como Violeira Revelação no evento Revelando São Paulo 2022 e também no Festival Viola da Terra, em 2021.

Versatilidade e Técnica a Serviço da Emoção
Além da narrativa das estações, o álbum apresenta faixas como "Lágrimas de Amor", "Bosque" e a intrincada "Quebra Cabeça". O que impressiona na execução de Mel Moraes não é apenas a velocidade ou o virtuosismo, mas a clareza de suas intenções musicais.
Com uma formação que passa pelo estudo com mestres como Arnaldo Freitas e Fernando Deghi, Mel domina as afinações tradicionais — Cebolão, Rio Abaixo, Boiadeira — mas as utiliza para criar texturas que flertam com o New Age e a música instrumental global. Ela cita influências que vão de Tião Carreiro a Enya e Vangelis, e essa mistura inusitada resulta em uma viola atmosférica, cinematográfica.
A Força Feminina na Viola
Mel Moraes também é um nome importante na consolidação da presença feminina no cenário da viola caipira. Integrante do grupo de catira "7 Ouro" e fez parte do projeto "Viola com Elas", sua música carrega a força e a sensibilidade de quem ocupa, com competência e brilho, um espaço historicamente masculino.
"Suíte das Estações" não é apenas um disco de viola; é um convite para desacelerar e ouvir o tempo passar através das cordas. É a viola caipira provando, mais uma vez, que serve tanto para festejar como para pintar quadros invisíveis no ar.
Disponível em todas as plataformas digitais, o álbum é audição obrigatória para quem quer conhecer as novas fronteiras da nossa música instrumental.