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Zaravi: quando a Viola Caipira encontra o Oriente e a Rabeca em um sopro de brasilidade

O disco marca o surgimento do trio formado por Thiago Rossi, Dalga Larrondo e Bruno Menegatti.
28 de novembro de 2025 por
Zaravi: quando a Viola Caipira encontra o Oriente e a Rabeca em um sopro de brasilidade
Vinícius Muniz
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Há encontros musicais que nascem não de fórmulas comerciais, mas de uma busca genuína por novos horizontes sonoros. Zaravi é um desses projetos raros: um trio formado por Thiago Rossi (viola caipira), Dalga Larrondo (zarb e percussão) e Bruno Menegatti (rabeca) que celebra a essência da diversidade brasileira ao unir três universos aparentemente distantes — a viola do sertão, a rabeca dos folguedos populares e o zarb persa — em uma proposta que exala brasilidade e sofisticação.


Lançado em 2024 através da Lei Federal de Incentivo à Cultura, com patrocínio da Aviagen e Stoller, o álbum de estreia homônimo do trio materializa anos de experimentação, pesquisa e parceria entre músicos que, embora tenham formação erudita, escolheram mergulhar nas tradições populares brasileiras como caminho de criação artística.

Zaravi - zarb-rabeca-viola


Três Instrumentos, uma Alma Brasileira

A formação instrumental do Zaravi é, por si só, uma declaração de intenções. A viola caipira, instrumento símbolo do Brasil rural e das raízes sertanejas, encontra-se com a rabeca, cordofone friccionado presente nos fandangos, cavalo-marinho, coco e tantas manifestações populares do Nordeste e Sul do país. Completando o triângulo sonoro está o zarb, tambor de origem persa que, com sua sonoridade complexa, traz texturas rítmicas sofisticadas sem nunca destoar da matriz brasileira.

O resultado é uma sonoridade ao mesmo tempo ancestral e contemporânea: os ponteios da viola dialogam com a voz aguda e melancólica da rabeca, enquanto o zarb sustenta e conduz, criando tapetes rítmicos que evocam tanto as batidas do Oriente Médio quanto as células rítmicas das modas de viola e toadas caipiras.

O Disco: Repertório Entre Tradição e Autoria

O álbum "Zaravi" reúne composições próprias e releituras de obras de compositores fundamentais da música brasileira contemporânea. No repertório, Almir Sater, Levi Ramiro, Anderson Baptista, Zé Gramani, dividem espaço com composições dos integrantes do trio, traçando um mapa afetivo que vai do Pantanal ao interior paulista, das festas de folia às salas de concerto.

As composições e arranjos combinam rusticidade e requinte, caracterizando-se pela harmonia timbrística e pela capacidade de transportar o ouvinte a uma "experiência atemporal", como define o próprio release do grupo — ilustrativa de uma cultura viva em constante processo de transformação.

Entre as faixas, destacam-se versões instrumentais que revelam o domínio técnico dos músicos e a sensibilidade na escolha dos timbres: a viola ora assume papel solista, ora se deita em diálogos contrapuntísticos com a rabeca; o zarb ora marca pulsos de baião e xote, ora cria atmosferas meditativas que abrem espaço para improvisações líricas.

Trajetória e Parcerias: Educação e Circulação

Desde sua formação, o trio Zaravi vem se apresentando em festivais, centros culturais e projetos educativos por todo o Sudeste brasileiro. Em parceria com a Cia. Tugudum e as Oficinas de Música Caipira, o grupo tem aproximado jovens e crianças dos instrumentos tradicionais, promovendo oficinas e apresentações didáticas que desmistificam a viola e a rabeca, mostrando-as como instrumentos vivos, capazes de dialogar com o contemporâneo.

Nos últimos anos, o Zaravi dividiu palcos com nomes como Gabriel Sater, João Paulo Amaral e Ricardo Matsuda, consolidando sua presença em um circuito que valoriza a música de raiz sem abrir mão da pesquisa, da inovação e da excelência técnica.

Brasilidade em Movimento

O que torna "Zaravi" um trabalho relevante no cenário da viola caipira contemporânea é justamente sua recusa ao exotismo fácil e à folclorização. Não se trata de "juntar instrumentos diferentes" por novidade, mas de construir uma linguagem própria a partir do respeito às tradições e da curiosidade criativa. Como declara o release do grupo, o trio "celebra a essência da alma brasileira da diversidade, da miscigenação, das relações antropofágicas, instigando a curiosidade criatividade, compartilhando sua busca pela inovação artística e o prazer da descoberta estética".​

Essa postura coloca o Zaravi ao lado de outros projetos fundamentais da música instrumental brasileira que expandem as fronteiras da viola sem romper com suas raízes — como as orquestras de viola, os duos experimentais e os violeiros-compositores que, nas últimas décadas, têm reposicionado o instrumento como protagonista de uma cena musical viva, dinâmica e em constante renovação.

Zaravi, trio de música instrumental brasileira
Zaravi - Thiago Rossi, Dalga Larrondo e Bruno Menegatti
Zarb, Rabeca e Viola caipira
Zaravi - zarb, viola caipira e rabeca

Um Convite à Escuta

Para quem acompanha os universos da viola brasileira, "Zaravi" é descoberta obrigatória. O disco está disponível em todas as plataformas digitais e representa não apenas um registro fonográfico de qualidade, mas um convite a repensar as possibilidades do instrumento e da música de raiz no século XXI.​

Ao escutar o trio Zaravi, percebemos que a viola caipira não precisa escolher entre tradição e contemporaneidade, entre raiz e experimentação. Ela pode ser, ao mesmo tempo, memória sonora do Brasil profundo e ponte para novos horizontes — desde que esteja nas mãos de músicos que a compreendem não como relíquia, mas como instrumento vivo, capaz de dialogar com o mundo sem perder a alma.

Zaravi nos lembra que a brasilidade é, antes de tudo, capacidade de transformação, de encontro, de síntese. E que a viola, quando toca ao lado da rabeca e do zarb, continua sendo exatamente o que sempre foi: a voz do Brasil que se reinventa.

Ficha Técnica

Rabecas - Esdras Rodrigues
Zarb e percussão - Dalga Larrondo
Viola - Thiago Rossi
Gravação e mixagem - Mario Porto
Masterização _Homero Lotito
Direção Musical - Ricardo Matsuda
Pintura original arte - Lygia Eluf

Diagramação - Estudio Risco

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