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Marcelo Mafili: Entre o Pantanal e o Silêncio Monástico

Uma viola que escuta o silêncio e, com toda tranquilidade, desenha os caminhos para o futuro.
19 de janeiro de 2026 por
Marcelo Mafili: Entre o Pantanal e o Silêncio Monástico
Vinícius Muniz
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Quando um álbum de viola instrumental nasce da convergência de dois mundos aparentemente opostos — a imensidão do Pantanal Sul-Mato-Grossense e o recolhimento de uma comunidade monástica no sul de Minas Gerais — o resultado só pode ser de grande potência. "Mafili Instrumental de Viola", trabalho de estreia autoral do violeiro Marcelo Mafili, lançado em dezembro de 2025, é a prova de que a viola caipira continua sendo, acima de tudo, um instrumento de travessia: entre territórios, entre culturas, entre o som e o silêncio.

Composições que Nasceram nas Águas

O disco reúne oito faixas que, em sua maioria, foram concebidas há mais de uma década, quando Mafili vivia imerso nas paisagens pantaneiras. Títulos como "Curva de Rio""Águas Morenas" e "Morraria do Sul" não deixam dúvidas sobre a origem dessas melodias: elas carregam o cheiro da lama, o reflexo do sol nas águas lentas e a vastidão de um território onde o tempo parece correr em outro ritmo.

Mas o Pantanal, em Mafili, não é folclore ilustrativo. É paisagem interna. A faixa "Miranda" estabelece o tom: uma viola que não narra, mas contempla. Os dedilhados são precisos, mas nunca apressados, permitindo que cada nota respire. Em "lajodárah" e "Paisagem Familiar", a influência das águas se transforma em fluxo harmônico, onde a viola se expande e reverbera.

O Refinamento Veio no Claustro

Se as composições nasceram no Pantanal, foi nos anos de vivência monástica que o álbum ganhou sua alma definitiva. Mafili passou um período significativo recolhido em uma comunidade no sul de Minas, onde, entre orações e silêncio, aprofundou sua técnica e sua escuta. A quietude do claustro o ensinou a valorizar o espaço entre as notas, transformando o que eram melodias cruas em arranjos de rara sofisticação.

CD Marcelo Mafili - instrumental de viola


O resultado é audível. "Primavera Solar", que encerra o disco, é quase uma meditação sonora, onde a viola parece iluminar-se de dentro para fora. Já em "Côco de Dendê", a mais "dançante" do álbum, a energia do ritmo nordestino é equilibrada por uma sofisticação harmônica a viola também dialoga com ritmos afro-brasileiros provando que o Pantanal também é encruzilhada de culturas.

Uma Viola Sem Fronteiras

"Mafili Instrumental de Viola" não se contenta em ser um disco de viola "raiz" ou de viola "erudita". Não cabe em categorias, nem é preciso. Aqui, a viola é instrumento concertista, mas sem perder o sotaque. Mafili passeia com desenvoltura pelo baião, pelo chamamé, côco, ijexá, pela música experimental, sempre mantendo a identidade brasileira como fio condutor.

A técnica é impecável. Marcelo tem uma sonoridade muito polida e cuidada. Cada escala rápida, cada arpejo complexo está a serviço de uma narrativa maior. A viola de Mafili soa como quem já passou por muitos lugares, mas sabe de onde veio.

Marcelo Mafili


Um Marco na Viola Contemporânea

Se a viola caipira vive um momento de reinvenção no Brasil, "Mafili Instrumental de Viola" é uma das obras que ajudam a redefinir o que esse instrumento pode ser. Não se trata de "modernizar" a tradição, mas de expandir seu vocabulário sem romper com suas raízes. Mafili se junta a uma geração de artistas — como Jackson Ricarte, Levi Ramiro, Mel Moraes, Trio Zaravi e outros que já comentamos por aqui — que entende a viola como linguagem viva, capaz de absorver influências sem se dissolver.

O álbum está disponível em todas as plataformas digitais e é audição obrigatória para quem quer entender os novos caminhos da música instrumental brasileira. Mais do que um disco de viola, "Mafili Instrumental de Viola" é um convite para desacelerar, escutar e se deixar levar pelas águas — as do Pantanal e as do espírito.


Ouça: "Mafili Instrumental de Viola" está disponível no YouTube Music, Spotify e demais plataformas.

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