Em junho de 2026, o jovem violeiro Pedro Vaz, criado em Goiânia e radicado em Brasília, apresentou seu segundo álbum solo, intitulado “Bruta Flor”, dando, assim, continuidade a uma trajetória como compositor e solista de viola caipira que vem se mostrando bonita e fértil, e que se expressa nos discos autorais, na participação em outros grupo como a banda Caboclo Roxo, nas atividades como docente na Escola de Música de Brasília e frente à Orquestra Roda de Viola.
O disco reúne dez composições próprias para o trio formado por Pedro Vaz, na viola dinâmica, Pedro Macedo, no contrabaixo acústico, e André Rass, nas percussões. Um “power trio” que faz jus ao conceito, tanto na potência sonora quanto na coesão entre os três músicos.
O novo disco
“Bruta Flor” pode até ser entendido como continuação do primeiro disco de Pedro, “Dê Espaço ao Tempo”, de 2018. Afinal, os músicos são os mesmos, o estúdio e a produção musical também, sempre a cargo do mestre Ricardo Vignini, no Estúdio Bojo Elétrico, em São Paulo/SP. Porém, essa seria uma forma simplificada de ouvir esse novo trabalho. Passaram-se seis anos e, nesse intervalo, uma pandemia e muitos outros fatores deixaram marcas em todo o planeta. Em Pedro, essas marcas se escutam com clareza, mas, para explicá-las, precisamos abrir um parêntese e falar do conceito de Memento Mori.
MEMENTO MORI e a consciência da finitude
Memento Mori é uma frase em latim que significa literalmente “lembra-te de que vais morrer”. Mais do que uma frase, o conceito é uma prática filosófica que atravessa a história da humanidade desde os primeiros registros. Uma tradição comumente atribuída à Roma Antiga (embora de difícil comprovação) afirma que, durante os desfiles de generais vitoriosos pelas ruas romanas, um escravo lhes sussurrava constantemente: ‘Memento Mori’, para lembrá-lo de que, apesar daquele momento divino, ele ainda era apenas um mortal. O conceito também está presente em filósofos do estoicismo e na Idade Média, chegando à contemporaneidade envolto na ideia de carpe diem.
Se, nas artes visuais, esse conceito é visível em pinturas de natureza-morta e em representações de caveiras, relógios, flores murchas e velas apagadas, entre outros elementos, na produção recente para viola caipira, as composições de Pedro Vaz oferecem uma evocação sonora particularmente explícita dessa ideia: “Memento Mori nº 1”, “Memento Mori nº 2” e “Memento Mori nº 3”, que formam o cerne do álbum “Bruta Flor”. O próprio autor comenta sobre esse tema neste video.
Nessas três composições, escutam-se ponteados que evocam a urgência e a carga dramática por meio de arpejos rápidos e precisos, intercalados com notas ligadas que potencializam a pressa na tomada de consciência sobre a finitude. A influência do rock progressivo, o uso de diferentes tipos de escalas menores e as texturas da percussão completam a sonoridade construída pelo trio. São obras com personalidade própria, sem menções a clássicos de outros violeiros, ainda que estes estejam presentes, como em qualquer obra de arte.
É um grande mérito do compositor não interromper a experiência do ouvinte, levando-o a recordar outros tocadores/as.
A VIOLA DINÂMICA e os novos horizontes.

Há alguns anos, o luthier Luciano Queiroz vem contribuindo de forma consistente na construção de viola caipira, especialmente por meio dos modelos de viola dinâmica e eletrodinâmica. Sobre o segundo modelo, comentamos neste artigo.
O disco “Bruta Flor” foi feito com o primeiro modelo: a viola dinâmica. Um belíssimo instrumento de Queiroz, com um timbre que equilibra com precisão o som da viola caipira e as ressonâncias e harmônicos vindos dos ressonadores. Assim, esse instrumento, tão característico nas cantorias do Nordeste brasileiro, ganha, nas mãos de Pedro Vaz, novas possibilidades na música instrumental contemporânea, enveredando-se entre ritmos caipiras, solos de rock e ponteados modernos.
Essa viola dinâmica, executada com excelência em todas as faixas por Pedro, também contribui com força para o resultado final de outros temas do disco, como, por exemplo, nas faixas que o abrem e encerram, respectivamente: “Sombra Andarilha” e “Sempre Viva”. Esta última é uma mescla interessante entre a polca e elementos da música popular e do rock, conduzida pela viola de ponta a ponta. Um ponto de destaque é a mudança de seção entre o início mais contemplativo, que conecta-se com a atmosfera construída nas faixas anteriores, e o surgimento da levada da polca, conduzida com força pelo trio. As tradicionais linhas de baixo das polcas ganham um sabor especial no contrabaixo acústico levando o ouvinte a uma imersão interessante.
O Estúdio Bojo Elétrico e as novas gerações de violeiros/as
Um dos destaques do álbum é a qualidade técnica da produção musical. Os timbres dos instrumentos são muito precisos, e a mixagem dá coesão ao trio, permitindo uma escuta na qual se esquece do som e se conecta à música. Tudo com o equilíbrio que as composições pedem. Não se escuta conflitos por espaços sonoros, nem camadas descoladas do todo. Tal tarefa não é simples, especialmente nas músicas com grandes seções arpejadas na viola, que normalmente ocupam boa parte do espectro sonoro, ou ao menos da faixa do espectro mais facilmente percebida pelo ouvido humano. O timbre da viola dinâmica é muito transparente, revelando as minúcias da técnica do músico.
Essas qualidades não são mero acaso, pois vêm se repetindo, ao longo das últimas duas décadas, em diversos álbuns de outros violeiros/as, por meio das mãos e dos ouvidos de Ricardo Vignini, que está à frente do Estúdio Bojo Elétrico, em São Paulo/SP. O estúdio, pequeno em dimensões, mas grande em resultados sonoros, vem contribuindo de forma efetiva para o desenvolvimento da linguagem musical no entorno da viola caipira, proporcionando a jovens talentos como Pedro Vaz um espaço adequado para produzir e dar forma às ideias sonoras.
Ficha técnica
Produzido por Ricardo Vignini
Direção geral, composições e viola caipira por Pedro Vaz
Gravado e mixado por Ricardo Vignini no Estúdio Bojo Elétrico, São Paulo/SP
Masterizado por Gabriel Viela no Tempo Audiolab, Brasília/DF
Contrabaixo acústico por Pedro Macedo
Percussão por André Rass
Projeto gráfico por Luis Feitosa
Ilustração por Mateus Dutra
Produção executiva: Grazi Moreira - Tear Produtos Culturais
Projeto realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal
Música autoral com identidade própria
“Bruta Flor” é mais um capítulo da viola caipira contemporânea, mas não mais um que remete ao passado olhando para o futuro. São novas páginas, com identidade própria, que expressam as complexidades do mundo atual. Uma identidade que nasce em tempos aflitos, mas que, na certeza da finitude, usa essa urgência como combustível para criar.
