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A Viola Caipira na TV Cultura: Leandro Valentin em "O Novo Sempre Vem"

Um encontro importante entre diferentes gerações que olham para a viola do passado e do futuro.
5 de março de 2026 por
A Viola Caipira na TV Cultura: Leandro Valentin em "O Novo Sempre Vem"
Vinícius Muniz
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Há encontros que parecem inevitáveis, como se a tradição e o presente fossem, enfim, se dar as mãos diante das câmeras. Foi exatamente isso que aconteceu quando o violeiro Leandro Valentin — natural de Mirassol, interior paulista — sentou no estúdio do programa "O Novo Sempre Vem", da TV Cultura, apresentado por João Marcello Bôscoli. O episódio, gravado no segundo semestre de 2025 e exibido em janeiro de 2026, chega agora ao Spotify, ampliando o alcance de um registro audiovisual que se tornou um dos momentos mais marcantes da viola caipira na televisão brasileira recente.

Um Programa para a Nova Cena

"O Novo Sempre Vem" não é um programa comum. Criado por João Marcello Bôscoli e André Szajman em parceria com a Trama e a TV Cultura, o projeto surgiu como plataforma de documentação e difusão da música brasileira que escapa do mainstream. Gravado em 4K com áudio multicanal nos Estúdios Trama NaCena, em São Paulo, cada episódio é uma sessão de estúdio ao vivo — sem ensaios excessivos, sem edições que apaguem a emoção do momento. A ideia de Bôscoli é simples e poderosa: deixar a música ocupar o máximo de espaço possível.
Convidar Leandro Valentin foi, portanto, uma declaração de intenções. A viola caipira — instrumento que carrega séculos de tradição rural — sentou ao lado de outros nomes da nova cena e afirmou sua contemporaneidade sem pedir licença.

Leandro Valentin: Quando a Raiz Encontra o Digital

Doutor em Letras pela UNESP e biógrafo em construção do mestre Tião Carreiro, Leandro Valentin é hoje um dos violeiros mais completos e influentes do Brasil. Com mais de 300 mil seguidores no Instagram e cerca de 60 milhões de visualizações em seus vídeos, ele provou que o toque tradicional da viola — com toda a sua herança de pagodes, modas e ponteados — pode habitar o universo digital sem perder a alma.
Vencedor do Festival Viola SP (Revelando SP) na categoria "Viola Tradicional" em 2022 e do Festival Viola em Foco em 2018, Valentin construiu sua reputação a partir de uma premissa clara: a tradição não é museu. É matéria viva, capaz de se renovar sem se dissolver.

Leandro Valentin se destaca pela sonoridade que produz com a viola. Com melodias muito transparentes e cristalinas. Alterna, com muita fluidez, entre o toque com dedeira e com unha. Além disso, equilibra muito bem os ponteados com os demais dedos. Enfim, uma técnica muito robusta que vai muito além dos toques tradicionais da viola

A Surpresa do Repertório Autoral

O convite de Bôscoli trouxe um desafio e, ao mesmo tempo, um presente para o artista. Acostumado a transmitir a tradição de Tião Carreiro, Bambico e Almir Sater, Valentin foi convidado a apresentar composições próprias — e essa exigência o levou a criar músicas que, segundo ele mesmo admitiu, talvez não existissem sem essa experiência: "O João Marcello me conheceu pela internet e pediu que eu tocasse músicas próprias. Isso me levou a criar coisas que talvez não existissem sem essa experiência".

Rafael Schmidt: O Violonista que Sustentou a Jornada

Do início ao fim da sessão, o violeiro teve ao seu lado o violonista e violeiro Rafael Schmidt — figura que merece destaque especial. Parceiro de Valentin em todas as seis faixas do repertório, Schmidt construiu um diálogo preciso e sensível com a viola, nunca sobrando, nunca faltando. Sua presença discreta e competente funciona como alicerce invisível: é ele quem garante o espaço harmônico para que a viola de Valentim voe. O restante da banda — Flávio Nunes (contrabaixo), Marcelinho Costa (percussão) e Lucas Cruz (bateria) — entra apenas na última faixa, transformando o encerramento num momento de expansão coletiva após a intimidade acústica das faixas anteriores.

O Repertório: Seis Janelas Autorais
Todo o programa é formado por composições próprias de Leandro Valentin, o que por si só é uma afirmação de maturidade artística. Seis faixas que, juntas, constroem uma narrativa coesa sobre a viola e o Brasil contemporâneo:
1. Alvorejo — Abre o programa com a força de um galope em afinação Rio Abaixo, revelando de imediato uma das influências centrais de Valentin: o mestre Almir Sater. A viola galopa com energia e precisão, enquanto Rafael Schmidt surpreende com solos que cortam os arpejos do instrumento com linhas melódicas inusitadas — uma conversa entre dois instrumentos que se respeitam e se desafiam mutuamente.
2. Toca do Lambari — Um cururu de alma clássica que, num primeiro momento, parece nos conduzir pelos caminhos já conhecidos do gênero. Mas Valentin guarda surpresas: mudanças harmônicas inesperadas surgem no meio da jornada, enriquecendo a narrativa e transformando o familiar em algo novo e especial. É a tradição sendo renovada por dentro.
3. Bambico Eterno — Homenagem ao lendário violeiro Bambico, um dos pilares da história da viola caipira. Valentin não imita o mestre — ele o reverencia com uma composição que captura o espírito do ponteado clássico sem cair no pastiche. O resultado é emocionante e tecnicamente impecável: um retrato sonoro que celebra o passado sem se prender a ele.
4. Peregrino — Numa jornada pelas tradições da viola, uma guarânia e suas adjacências ternárias são parada obrigatória. Valentin cumpre o combinado com generosidade: um belo conjunto de melodias em compasso três, onde cada frase convida o ouvinte a caminhar sem pressa. Schmidt completa o quadro com a elegância de sempre, seus acordes servindo de moldura perfeita para as melodias da viola.
5. Seleção de Pagodes — O coração do programa bate mais forte aqui. Uma sequência de pagodes de viola que celebra a face mais festiva e identitária do instrumento, executados com o rigor técnico de quem estudou fundo os mestres. É a faixa que arranca sorrisos de reconhecimento dos iniciados — e desperta curiosidade em quem ainda não conhece essa tradição.
6. Sertão em Bossa — O grande clímax do programa. É aqui que entram Flávio Nunes (contrabaixo), Marcelinho Costa (percussão) e Lucas Cruz (bateria), transformando o que era intimidade acústica em algo maior e mais denso. A viola caipira encontra o groove de uma banda completa, e o título cumpre sua promessa: é o sertão reinterpretado pela sofisticação harmônica da bossa nova. Um dos momentos mais originais e inesperados de toda a sessão — e a prova de que a viola tem muito mais a dizer do que muitos imaginam.

A Viola na Televisão e no Streaming
O episódio de Leandro Valentin em "O Novo Sempre Vem" é também um sinal dos tempos. A mesma viola que Valentin usa para ensinar centenas de milhares de pessoas nas redes sociais agora chega ao Spotify, circulando pelos ouvidos de quem talvez nunca tenha pisado numa festa caipira ou numa roda de moda. É a tradição ocupando os espaços do presente — não como curiosidade folclórica, mas como linguagem viva, relevante e necessária.
Para o vm.lab, o episódio é leitura obrigatória da cena atual: prova de que a viola caipira, quando tocada com maestria e propósito, encontra seu público em qualquer plataforma, em qualquer tela.

Assista ao episódio completo no YouTube (Trama TV) e ouça no Spotify.


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