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Warner Music e SUNO: O acordo que redefine o futuro da música gerada por IA

Em 25 de novembro de 2025, a Warner Music Group (WMG) revelou um acordo inovador com a SUNO, plataforma de criação musical impulsionada por inteligência artificial.
28 de novembro de 2025 por
Warner Music e SUNO: O acordo que redefine o futuro da música gerada por IA
Vinícius Muniz
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Em 25 de novembro de 2025, a Warner Music Group (WMG) anunciou um acordo histórico com a SUNO, plataforma de criação musical baseada em inteligência artificial, encerrando uma disputa judicial que se arrastava desde 2024 e estabelecendo um novo paradigma para a relação entre a indústria fonográfica e as tecnologias de IA generativa. O anúncio surpreendeu o mercado musical mundial e levanta questões cruciais para todos os músicos — especialmente aqueles ligados à música tradicional, como os violeiros brasileiros.

O Contexto: Uma Guerra Jurídica pela Alma da Música

Em junho de 2024, as três maiores gravadoras do mundo — Sony Music, Universal Music Group (UMG) e Warner Music — moveram processos judiciais contra a SUNO e outra plataforma de IA musical, a Udio, nos tribunais federais dos Estados Unidos. As ações, apresentadas em Massachusetts (contra a SUNO) e Nova York (contra a Udio), acusavam as empresas de violação de direitos autorais em “escala massiva”.

Segundo as gravadoras, a SUNO copiou 662 músicas protegidas e a Udio copiou 1.670 gravações sem autorização, utilizando esse material para treinar seus modelos de inteligência artificial. O argumento central era que essas plataformas “copiaram músicas sem permissão para ensinar seus sistemas a criar música que concorrerá diretamente, barateará e, em última análise, suprimirá o trabalho de artistas humanos”. As gravadoras pediam indenizações de até US$ 150 mil por obra infringida.

Paralelamente, em junho de 2024, o artista independente de country Tony Justice também processou SUNO e Udio, representando milhares de artistas independentes cujas obras foram capturadas sem consentimento ou remuneração. O caso de Justice é especialmente relevante para músicos fora dos grandes selos, incluindo violeiros e artistas de música regional brasileira.

A Virada: Do Confronto à Parceria

Após meses de embate, a Warner Music surpreendeu ao anunciar não apenas o fim do processo, mas uma parceria completa de licenciamento com a SUNO. O acordo prevê:

Licenciamento oficial: A SUNO utilizará o catálogo da Warner para treinar novos modelos de IA que serão lançados em 2026
• Controle artístico: Artistas da Warner poderão optar voluntariamente por permitir o uso de suas vozes, imagens, nomes e composições em músicas geradas por IA — com direito a remuneração
• Novos modelos monetização: A parceria abrirá novas fontes de receita para artistas participantes.
• Restrições de download: A partir de 2026, usuários da versão gratuita da SUNO não poderão baixar músicas; assinantes pagos terão limites mensais de downloads.
• Aquisição da Songkick: A SUNO comprou a plataforma de descoberta de shows da Warner, integrando-a ao ecossistema.

Robert Kyncl, CEO da Warner Music, declarou: “Este acordo histórico com a SUNO é uma vitória para a comunidade criativa que beneficia a todos”. A SUNO, por sua vez, informou ter alcançado 100 milhões de criadores em sua plataforma.

Vale destacar que a Universal Music e a Sony também encerraram seus processos contra a Udio, firmando acordos de licenciamento similares. Essas movimentações indicam uma mudança estratégica das majors: de resistência total à cooptação das tecnologias de IA.

IA e Música Regional: A Viola Caipira na Era dos Algoritmos

Mas o que esse cenário significa para a música de viola caipira e para os artistas da tradição brasileira? As implicações são profundas e complexas.

A IA Consegue Criar Música de Viola?
A resposta curta é: sim, mas com limitações significativas. Plataformas como SUNO, Udio e outras ferramentas de IA generativa já conseguem produzir músicas no estilo sertanejo, incluindo simulações de viola caipira. Tutoriais na internet ensinam usuários a criar “sertanejaço” e outros estilos regionais brasileiros com comandos de texto simples. No Brasil, já surgiram até duplas sertanejas virtuais criadas inteiramente por IA, que realizam apresentações em rodeios e lideram rankings de streaming.

No entanto, essas criações revelam um vazio estético e cultural. A viola caipira não é apenas um conjunto de notas e ritmos: ela carrega técnicas específicas (como o toque aranhado de Gedeão da Viola, os ponteios de Tião Carreiro, as afinações regionais), contextos sociais (folias de reis, catiras, modas de viola), memórias territoriais e saberes transmitidos oralmente por gerações. Uma IA pode imitar padrões rítmicos e melódicos, mas não carrega a vivência do sertão, o peso da tradição ou a espiritualidade das festas populares.

Proteção ou Vulnerabilidade? O Dilema dos Violeiros

O acordo Warner-SUNO levanta duas questões centrais para artistas de viola:
1. Os artistas terão suas músicas mais protegidas?
Para artistas vinculados a grandes gravadoras que aderirem aos acordos de licenciamento, a resposta é: parcialmente. Os novos modelos prometem compensação financeira e controle sobre o uso de suas obras. Porém, artistas independentes — que representam a maioria dos violeiros brasileiros — permanecem vulneráveis. Como demonstrou o processo de Tony Justice, milhares de obras independentes já foram capturadas sem autorização.

No Brasil, onde 77% dos ouvintes defendem que músicas criadas por IA devem ser rotuladas e 67% consideram antiético o uso de obras protegidas sem autorização, há um apelo público por transparência. Contudo, a legislação brasileira ainda não oferece mecanismos claros de proteção contra o uso não autorizado de obras na alimentação de modelos de IA.

2. E os artistas que apoiam a criação com IA?
Há violeiros e compositores que veem a IA como ferramenta criativa auxiliar — para gerar ideias melódicas, testar arranjos ou explorar harmonizações. Esses artistas podem se beneficiar das plataformas licenciadas que surgirão em 2026, desde que respeitados os limites éticos e legais. No entanto, é crucial distinguir entre uso de IA como ferramenta criativa (assistida) e substituição completa do processo autoral.

Por Onde Devemos Caminhar? Reflexões para Violeiros/as

Diante desse cenário, cinco diretrizes emergem para artistas de viola caipira e música tradicional:

1. Registre e proteja suas obras 
Todo violeiro deve registrar composições e gravações em órgãos oficiais (Biblioteca Nacional, ECAD, etc.). Isso garante propriedade intelectual e facilita ações judiciais em caso de uso não autorizado.
2. Exija transparência 
Plataformas de streaming e criação musical devem informar se utilizam IA e como compensam artistas. A rotulagem de músicas geradas por IA é urgente.

3. Valorize o processo criativo humano 

A viola caipira é patrimônio cultural imaterial. Sua técnica, história e contexto não podem ser reduzidos a padrões algorítmicos. O valor da música tradicional está em sua autenticidade, memória viva e relação com o território.

4. Participe do debate Associações de violeiros, movimentos culturais e artistas devem pressionar por legislação que proteja música tradicional e artistas independentes. O modelo de acordos das majors não pode ser o único caminho.

5. Use a IA com consciência crítica 
Se optar por experimentar ferramentas de IA, faça-o como complemento criativo, nunca como substituição. E questione: essa tecnologia está a serviço da arte ou da precarização do trabalho artístico?

Vale a Pena o Uso de IA para Criar Música?


A resposta depende do que entendemos por “criar música”. Se o objetivo é produzir conteúdo em massa para algoritmos de streaming, a IA pode ser “eficiente”. Mas se criar música significa expressar vivências, preservar tradições, dialogar com o território e construir identidades culturais, então a IA jamais substituirá o toque humano — especialmente na viola caipira, instrumento que é, acima de tudo, memória sonora de um povo.

O acordo Warner-SUNO inaugura uma nova era, mas também expõe contradições: enquanto as majors lucram com licenciamentos, artistas independentes e tradicionais permanecem desprotegidos. Para os violeiros brasileiros, o desafio é claro: resistir à dissolução de sua arte em dados, proteger seus saberes ancestrais e afirmar o valor insubstituível da criação humana.

A viola continuará soando — desde que esteja nas mãos de quem a conhece não por algoritmos, mas por herança, luta e pertencimento.

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