Pular para o conteúdo

Ralph Towner: O violonista que expandiu fronteiras e influenciou gerações

Gênio das cordas faleceu no último dia 18 de janeiro de 2026 em Roma aos 85 anos. Para quem dedica a vida à viola caipira, ao violão ou a qualquer instrumento de cordas dedilhadas, a obra de Ralph Towner permanece como farol.
19 de janeiro de 2026 por
Ralph Towner: O violonista que expandiu fronteiras e influenciou gerações
Vinícius Muniz
|

No último domingo, 18 de janeiro, o mundo musical perdeu Ralph Towner, aos 85 anos, em Roma. Sua partida representa o fim de uma era para músicos que, como ele, dedicaram a vida a explorar territórios onde jazz, música clássica e tradições globais se encontram e conversam em pé de igualdade.

Um arquiteto de sonoridades

Towner não era apenas um virtuose técnico — era um pensador musical. Formado em composição pela Universidade de Oregon, trazia para suas performances e gravações uma clareza arquitetônica que transformava cada nota em parte de uma construção maior. Seu domínio sobre violões de 12 cordas e violão clássico, somado à fluência no piano, criou uma linguagem única que desafiava categorizações fáceis.​

O relacionamento de mais de cinco décadas com a ECM Records, iniciado em 1972, proporcionou o ambiente ideal para que essa visão se desenvolvesse. Álbuns como Solo Concert (1980) redefiniam o que uma performance solo de violão poderia ser: contraponto clássico fundido com improvisação e ritmos assimétricos do jazz, tudo acontecendo em tempo real.

Discos míticos

Ralph Towner Solstice Ralph Towner Ralph Towner

Oregon e a coragem da contra-corrente

Em 1970, junto com Glen Moore, Paul McCandless e Collin Walcott, Towner fundou o Oregon. Enquanto o jazz-fusion eletrificado dominava os anos 1970, o quarteto seguia na direção oposta: acústica, contemplatativa, aberta às influências de músicas folclóricas e formas clássicas indianas. Era música que exigia do ouvinte atenção e disponibilidade, mas recompensava com profundidade e beleza.​

A formação do grupo aconteceu dentro do Paul Winter Consort, onde Towner conheceu músicos que se tornariam parceiros de toda uma vida. Walcott havia estudado com Ravi Shankar e Alla Rakha, trazendo para o Oregon uma compreensão profunda de tradições rítmicas e melódicas do subcontinente indiano. O resultado era uma sonoridade que não pertencia a nenhum lugar específico e, ao mesmo tempo, dialogava com tradições de vários cantos do mundo.

Pontes entre mundos musicais

A genialidade de Towner residia em sua capacidade de fazer instrumentos e tradições distintas conversarem sem que nenhuma perdesse sua identidade. Sua participação como convidado no álbum I Sing the Body Electric (1972) do Weather Report, contribuindo com seu violão de 12 cordas na faixa "The Moors", é exemplo dessa habilidade de transitar entre universos.​

Para músicos da viola caipira e da música instrumental brasileira, Towner representa uma lição essencial: respeitar profundamente as tradições enquanto se mantém aberto ao diálogo. Sua abordagem demonstrava que é possível integrar influências diversas sem diluir a essência de cada elemento, criando algo novo que honra suas origens.

Um legado que segue ressoando

Ao longo de sua carreira, Towner lançou mais de vinte álbuns pela ECM, colaborando com nomes como John Abercrombie, Gary Burton, Jan Garbarek e Eberhard Weber. Cada projeto era uma oportunidade de explorar novas possibilidades expressivas do violão, expandindo constantemente os limites do instrumento.​

Residindo na Itália desde o início dos anos 1990, Towner manteve-se ativo até o fim, provando que música de qualidade não tem prazo de validade. "Continuamos estritamente porque a música continua", disse ele em entrevista à Innerviews, explicando a longevidade do Oregon. "Se a música não fosse boa, teríamos parado há muito tempo."​

Para quem dedica a vida à viola caipira, ao violão ou a qualquer instrumento de cordas dedilhadas, a obra de Ralph Towner permanece como farol: técnica impecável a serviço da expressão genuína, abertura ao mundo sem perda de identidade, e a coragem de seguir caminhos próprios mesmo quando vão na contramão das tendências dominantes. Sua música segue viva, convidando novas gerações a escutar com atenção e a tocar com profundidade.

Compartilhar 
Faça login para deixar um comentário