Pressionada pela proibição do Jacarandá-da-Bahia e pelo combate ao tráfico de madeiras nobres, a viola caipira se vê diante de seu maior desafio: abandonar o fetiche pelas espécies em extinção para abraçar um novo padrão de excelência sustentável. Descubra como o crime ambiental, a diplomacia climática e a ciência estão redefinindo o som da nossa música raiz.
A Crise do Jacarandá: Do Crime Ambiental à Revolução das Madeiras Nativas na Luthieria Brasileira
A viola caipira, símbolo máximo da cultura raiz brasileira, enfrenta um dilema existencial que ultrapassa as fronteiras das rodas de catira e invade os corredores da diplomacia internacional. O Jacarandá-da-Bahia (Dalbergia nigra) e o Pau-Brasil, madeiras que historicamente definiram o padrão de excelência sonora dos nossos instrumentos, estão no centro de uma crise ecológica, legislativa e policial sem precedentes.
Com a recente COP30 realizada em Belém (2025), o debate sobre bioeconomia ganhou força global, colocando luthiers, músicos e a indústria diante de uma escolha inevitável: reinventar a tradição ou ver a luthieria clássica desaparecer sob o peso da escassez e de leis ambientais cada vez mais restritivas.
O "Ouro Negro" e a Rota do Crime
Durante séculos, o Jacarandá-da-Bahia foi a madeira dos sonhos para fundos e laterais de violas de alto nível. Sua densidade única e beleza estética — com veios negros contrastantes — oferecem graves profundos e um "brilho" sonoro difícil de imitar. Porém, a exploração predatória colocou a espécie no Apêndice I da CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção), proibindo totalmente seu corte e comércio internacional desde 1992.
Não é exagero comparar o Jacarandá-da-Bahia ao marfim ou aos diamantes de sangue. Proibido, ele virou alvo de cobiça e crime. Nas últimas décadas, operações da Polícia Federal, como a "Wood Stock", revelaram redes criminosas que extraíam a madeira no Sul da Bahia e no Espírito Santo para exportá-la ilegalmente. Em 2009 e 2011, o escândalo ganhou escala global quando agentes federais dos EUA invadiram a fábrica da Gibson, lendária marca de guitarras, apreendendo estoques de ébano e jacarandá de origem suspeita.
Hoje, uma viola de jacarandá "legítimo" é praticamente uma joia de museu. Luthiers que ainda possuem estoques antigos certificados cobram fortunas por instrumentos que, para viajar ao exterior, exigem uma burocracia digna de obras de arte.
A Lição da COP30: O Som da Floresta em Pé
Se o cenário parece desolador, a COP30 apontou caminhos luminosos. Em meio às negociações climáticas em Belém, a cultura amazônica mostrou que a música pode ser aliada da preservação. Projetos de "bioinstrumentos" provaram que é possível extrair sonoridades ricas de resíduos da floresta — cascas de cupuaçu, fibras e sementes — sem derrubar uma única árvore.
Embora a viola caipira exija estruturas mais rígidas, a mensagem da conferência foi clara: o "luxo" do século XXI não é mais a raridade da madeira extinta, mas a certificação de origem e o manejo sustentável. O governo brasileiro aproveitou o evento para defender a soberania sobre o Pau-Brasil, essencial para arcos de rabecas e violinos, buscando um equilíbrio que proteja a espécie sem inviabilizar a música.
A Revolução das Madeiras Nativas
Nos ateliês de luthieria do Brasil, uma revolução silenciosa já começou. Pesquisas do Laboratório de Produtos Florestais (LPF) e a ousadia de novos construtores estão desmistificando a necessidade das madeiras importadas ou proibidas. Uma nova geração de luthiers encontrou nas madeiras nativas alternativas o futuro do instrumento:
1. Muracatiara (ou Muiracatiara): O Tigre Brasileiro
Conhecida como "Gonçalo-Alves" ou "Tigerwood" devido aos seus rajados marcantes, a Muracatiara (Astronium lecointei) tem se revelado uma substituta excepcional. Densa e pesada, oferece resposta de graves firme e brilho nos agudos que lembra muito o jacarandá. Abundante e de manejo permitido, democratiza o acesso a instrumentos maciços de alta qualidade.
2. Pau-Ferro e Jacarandá Violeta
Considerados por muitos como os sucessores naturais do Jacarandá-da-Bahia, oferecem densidade e projeção sonora equivalentes, sendo amplamente aceitos na luthieria moderna de violões e violas.
3. Araucária: O Abeto do Sul
Para o tampo da viola, a nossa Araucária (Araucaria angustifolia) surge como alternativa ao Abeto Europeu (Spruce). Com uso de madeira de demolição ou manejo antigo, permite a construção de tampos com sonoridade clara e definida, trazendo uma identidade sulista ao instrumento.
O Violeiro do Futuro
A insistência no Jacarandá-da-Bahia hoje é mais um fetiche estético do que uma necessidade acústica. Estudos mostram que a arquitetura interna do instrumento (leque harmônico) define a maior parte do timbre. Violas feitas de Pau-Ferro, Imbuia ou Muracatiara podem soar tão "raiz" quanto as antigas, mas sem carregar o peso da extinção.
Para o violeiro, a escolha da madeira torna-se um ato político. Tocar uma viola feita de madeira certificada é afirmar que a tradição caipira — que sempre cantou a terra, o rio e a mata — não é cúmplice da destruição desses mesmos cenários. O futuro da viola caipira será verde, ou não será. E, a julgar pela criatividade dos nossos luthiers e pela consciência despertada na COP30, ele tem tudo para soar mais afinado do que nunca com a natureza.
Referências Consultadas:
IBAMA apreende carga de madeira ameaçada de extinção em SP - gov.br/ibama
CITES e a proteção do Jacarandá - cites.org
Operação da Polícia Federal contra extração ilegal - g1.globo.com
Caso Gibson Guitars e a Lei Lacey - npr.org
Madeiras Brasileiras na Luthieria (Santo Angelo) - blog.santoangelo.com.br
Bioinstrumentos na COP30 - portalamazonia.com
Pau-Brasil: do perigo de extinção aos arcos de violino - apublica.org