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Ecos da COP30: A Crise do Jacarandá e a Revolução Sustentável da Viola Caipira

Enquanto a COP30, em Belém, debatia o futuro da bioeconomia global, uma revolução silenciosa ganhava força nos ateliês de luthieria do Brasil.
27 de dezembro de 2025 por
Ecos da COP30: A Crise do Jacarandá e a Revolução Sustentável da Viola Caipira
Vinícius Muniz
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Pressionada pela proibição do Jacarandá-da-Bahia e pelo combate ao tráfico de madeiras nobres, a viola caipira se vê diante de seu maior desafio: abandonar o fetiche pelas espécies em extinção para abraçar um novo padrão de excelência sustentável. Descubra como o crime ambiental, a diplomacia climática e a ciência estão redefinindo o som da nossa música raiz.


A Crise do Jacarandá: Do Crime Ambiental à Revolução das Madeiras Nativas na Luthieria Brasileira

A viola caipira, símbolo máximo da cultura raiz brasileira, enfrenta um dilema existencial que ultrapassa as fronteiras das rodas de catira e invade os corredores da diplomacia internacional. O Jacarandá-da-Bahia (Dalbergia nigra) e o Pau-Brasil, madeiras que historicamente definiram o padrão de excelência sonora dos nossos instrumentos, estão no centro de uma crise ecológica, legislativa e policial sem precedentes.

Com a recente COP30 realizada em Belém (2025), o debate sobre bioeconomia ganhou força global, colocando luthiers, músicos e a indústria diante de uma escolha inevitável: reinventar a tradição ou ver a luthieria clássica desaparecer sob o peso da escassez e de leis ambientais cada vez mais restritivas.

O "Ouro Negro" e a Rota do Crime

Durante séculos, o Jacarandá-da-Bahia foi a madeira dos sonhos para fundos e laterais de violas de alto nível. Sua densidade única e beleza estética — com veios negros contrastantes — oferecem graves profundos e um "brilho" sonoro difícil de imitar. Porém, a exploração predatória colocou a espécie no Apêndice I da CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção), proibindo totalmente seu corte e comércio internacional desde 1992.

Não é exagero comparar o Jacarandá-da-Bahia ao marfim ou aos diamantes de sangue. Proibido, ele virou alvo de cobiça e crime. Nas últimas décadas, operações da Polícia Federal, como a "Wood Stock", revelaram redes criminosas que extraíam a madeira no Sul da Bahia e no Espírito Santo para exportá-la ilegalmente. Em 2009 e 2011, o escândalo ganhou escala global quando agentes federais dos EUA invadiram a fábrica da Gibson, lendária marca de guitarras, apreendendo estoques de ébano e jacarandá de origem suspeita.

Hoje, uma viola de jacarandá "legítimo" é praticamente uma joia de museu. Luthiers que ainda possuem estoques antigos certificados cobram fortunas por instrumentos que, para viajar ao exterior, exigem uma burocracia digna de obras de arte.

A Lição da COP30: O Som da Floresta em Pé

Se o cenário parece desolador, a COP30 apontou caminhos luminosos. Em meio às negociações climáticas em Belém, a cultura amazônica mostrou que a música pode ser aliada da preservação. Projetos de "bioinstrumentos" provaram que é possível extrair sonoridades ricas de resíduos da floresta — cascas de cupuaçu, fibras e sementes — sem derrubar uma única árvore.

Embora a viola caipira exija estruturas mais rígidas, a mensagem da conferência foi clara: o "luxo" do século XXI não é mais a raridade da madeira extinta, mas a certificação de origem e o manejo sustentável. O governo brasileiro aproveitou o evento para defender a soberania sobre o Pau-Brasil, essencial para arcos de rabecas e violinos, buscando um equilíbrio que proteja a espécie sem inviabilizar a música.

A Revolução das Madeiras Nativas

Nos ateliês de luthieria do Brasil, uma revolução silenciosa já começou. Pesquisas do Laboratório de Produtos Florestais (LPF) e a ousadia de novos construtores estão desmistificando a necessidade das madeiras importadas ou proibidas. Uma nova geração de luthiers encontrou nas madeiras nativas alternativas o futuro do instrumento:

1. Muracatiara (ou Muiracatiara): O Tigre Brasileiro

Conhecida como "Gonçalo-Alves" ou "Tigerwood" devido aos seus rajados marcantes, a Muracatiara (Astronium lecointei) tem se revelado uma substituta excepcional. Densa e pesada, oferece resposta de graves firme e brilho nos agudos que lembra muito o jacarandá. Abundante e de manejo permitido, democratiza o acesso a instrumentos maciços de alta qualidade.

2. Pau-Ferro e Jacarandá Violeta

Considerados por muitos como os sucessores naturais do Jacarandá-da-Bahia, oferecem densidade e projeção sonora equivalentes, sendo amplamente aceitos na luthieria moderna de violões e violas.

3. Araucária: O Abeto do Sul

Para o tampo da viola, a nossa Araucária (Araucaria angustifolia) surge como alternativa ao Abeto Europeu (Spruce). Com uso de madeira de demolição ou manejo antigo, permite a construção de tampos com sonoridade clara e definida, trazendo uma identidade sulista ao instrumento.

O Violeiro do Futuro

A insistência no Jacarandá-da-Bahia hoje é mais um fetiche estético do que uma necessidade acústica. Estudos mostram que a arquitetura interna do instrumento (leque harmônico) define a maior parte do timbre. Violas feitas de Pau-FerroImbuia ou Muracatiara podem soar tão "raiz" quanto as antigas, mas sem carregar o peso da extinção.

Para o violeiro, a escolha da madeira torna-se um ato político. Tocar uma viola feita de madeira certificada é afirmar que a tradição caipira — que sempre cantou a terra, o rio e a mata — não é cúmplice da destruição desses mesmos cenários. O futuro da viola caipira será verde, ou não será. E, a julgar pela criatividade dos nossos luthiers e pela consciência despertada na COP30, ele tem tudo para soar mais afinado do que nunca com a natureza.

Referências Consultadas:

  1. IBAMA apreende carga de madeira ameaçada de extinção em SP - gov.br/ibama

  2. CITES e a proteção do Jacarandá - cites.org

  3. Operação da Polícia Federal contra extração ilegal - g1.globo.com

  4. Caso Gibson Guitars e a Lei Lacey - npr.org

  5. Madeiras Brasileiras na Luthieria (Santo Angelo) - blog.santoangelo.com.br

  6. Bioinstrumentos na COP30 - portalamazonia.com

  7. Pau-Brasil: do perigo de extinção aos arcos de violino - apublica.org


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