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A viola caipira também se aprende nos livros

Dos primeiros ponteios à harmonia e à improvisação, conheça livros que ampliam os caminhos para estudar a viola caipira.
29 de setembro de 2026 by
Vinícius Muniz
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É inegável que, a partir de meados da década de 1970, a viola caipira, ou viola brasileira, vem passando por um processo de escolarização e sistematização do seu universo musical.

É curioso constatar que um instrumento que chegou às terras brasileiras há quase quinhentos anos, que conta com uma multidão de praticantes em todas as regiões do Brasil e que tem um valor simbólico e cultural tão importante nacionalmente só tenha passado a aparecer no âmbito do saber escrito de maneira mais consistente há menos de 50 anos.

Atualmente, é possível encontrar, com relativa facilidade, registros e publicações voltados para o estudo da viola, porém principalmente nos campos das ciências sociais, abordando os universos culturais do instrumento, e não do ponto de vista técnico-musical. As publicações voltadas para esse último âmbito ainda são esparsas, principalmente aquelas que, de fato, aprofundam o conhecimento e permitem o desenvolvimento dos praticantes do instrumento.

Ainda assim, já é possível encontrar esforços louváveis de violeiros e violeiras que vêm registrando suas próprias práticas e concepções didáticas a fim de colaborar com a comunidade de praticantes.

Os livros apresentados a seguir mostram diferentes maneiras de transformar a prática da viola em conhecimento compartilhável. A seleção está organizada por afinidade entre as propostas, e não como um percurso obrigatório de aprendizagem.


Fundamentos e técnica


Roberto Corrêa: A arte de pontear viola

O violeiro Roberto Corrêa pode ser considerado um dos pioneiros e um grande entusiasta da sistematização da viola caipira a partir do saber escrito.

O violeiro fez seu primeiro esforço nessa direção ao publicar o livro Viola caipira, em 1983. Porém, foi em 2000, com a publicação de A arte de pontear viola, que consolidou um grande método de estudo do instrumento, principalmente por abordar técnicas de mão direita e mão esquerda, ritmos, estudos progressivos e repertório, além de registros históricos frutos de suas pesquisas ao longo das décadas anteriores.

Mais que uma coleção de exercícios, A arte de pontear viola combina pesquisa cultural e formação instrumental. O leitor encontra discussões sobre violas, afinações e música caipira, seguidas de estudos técnicos separados por mão direita, mão esquerda e ambas as mãos, além de ritmos e repertório. Na terceira edição, entram também sete composições do autor em partitura e tablatura.

Trata-se de um marco importante, útil para iniciantes e avançados, que ajuda o praticante a assentar excelentes bases técnico-musicais, seja para a viola solista, seja para o acompanhamento de canções.

Ficha técnica: Roberto Corrêa, A arte de pontear viola. Publicação original: 2000, edição do autor. Edição atualmente anunciada: 3ª edição revista e ampliada, 309 páginas, ISBN 978-85-93719-00-4.

Braz da Viola: dois caminhos de iniciação

O mestre violeiro e luthier Braz da Viola foi um dos pioneiros na escolarização moderna da viola caipira. Em 1992, Braz publicou o livro A viola caipira: técnicas para ponteio, pensado para a afinação Cebolão em Mi. O grande mérito da publicação é estabelecer bases elementares para qualquer iniciante no instrumento: afinação, escalas duetadas e técnicas básicas de ponteio.

Publicado pela editora Ricordi, o livro teve ampla distribuição, o que permitiu que muitas gerações de praticantes encontrassem um material de base para se iniciar na viola caipira.

Ficha técnica — A viola caipira: técnicas para ponteio: Braz da Viola; Ricordi; 1992; ISBN 978-85-99477-52-6.

Em 1999, Braz expandiu a abordagem e publicou o Manual do violeiro. Um livro tão importante quanto o anterior, mas que propõe um caminho diferente, agora com as afinações Cebolão em Ré e Rio Abaixo. Além de elementos de linguagem musical, dicionário de acordes, escalas duetadas e técnicas de ponteio, o autor inclui no livro algumas de suas composições, que cumprem uma função didática muito eficiente ao ajudar os praticantes a conquistar seus primeiros temas instrumentais na viola.

Um ponto que merece ressalva é a opção do autor por utilizar a tablatura com a ordem dos pares invertida verticalmente.

 

Ficha técnica — Manual do violeiro: Braz da Viola; Ricordi; 1999, segundo catálogo comercial; ISBN 978-85-99477-53-3.


Rui Torneze: método e estudos

O mestre violeiro Rui Torneze, diretor da Orquestra Paulistana de Viola Caipira, também ocupou, por muitos anos, o cargo de professor de viola na antiga Universidade Livre de Música (ULM, hoje EMESP) e vem contribuindo com a formação de muitas gerações de instrumentistas. Sua atuação como docente se estende também por meio de dois livros.

O primeiro, Viola caipira — estudo dirigido, apresenta os fundamentos do instrumento por meio de uma abordagem que aproxima leitura musical, cifras e repertório. Com prefácio de Inezita Barroso, o método conduz o estudante por aspectos práticos, da postura e afinação à digitação e formação dos acordes, usando músicas conhecidas para ligar a explicação à experiência de tocar.

Ficha técnica — Viola caipira — estudo dirigido: Rui Torneze de Araújo; Irmãos Vitale; 1998, conforme cadastro comercial; 64 páginas; ISBN 978-85-7407-055-1

Em Viola caipira instrumental: 42 estudos progressivos, Torneze se volta especialmente ao desenvolvimento da mecânica das mãos e à familiarização gradual do iniciante com a leitura musical formal. Os 42 estudos foram gravados pelo autor e oferecem uma referência em áudio para acompanhar o material impresso. Trata-se de um livro que pode acrescentar elementos importantes ao desenvolvimento dos instrumentistas.

Ficha técnica — Viola caipira instrumental: 42 estudos progressivos: Rui Torneze; Irmãos Vitale; 48 páginas; ISBN 978-85-7407-320-0


Estudos técnicos


Fernando Deghi: Ensaios para viola brasileira

O violeiro paulista Fernando Deghi também faz parte da geração de instrumentistas modernos que construíram pontes entre as tradições da viola e a música contemporânea. Com uma trajetória marcada por discos de sonoridade refinada, Deghi também deixou importantes contribuições didáticas para o instrumento, especialmente nas páginas de Ensaios para viola brasileira.

Trata-se de uma série de estudos melódicos e progressivos, praticáveis nas afinações Cebolão e Rio Abaixo, com os quais o autor visa desenvolver aspectos específicos: notas ligadas, saltos, arpejos de polegar, escalas, arrastes (glissandos e portamentos), apogiaturas, abertura da mão esquerda, trinados e posicionamento das mãos.

São estudos poderosos que, quando bem executados, premiam o praticante com importantes avanços na mecânica de execução e no controle da sonoridade.

Ficha técnica: Fernando Deghi, Ensaios para viola brasileira, vol. 1, série “Estudos melódicos e progressivos”; Violeiro Andante; 43 páginas. ISBN não confirmado.


Adelmo Arcoverde: Viola do Nordeste

Em Viola do Nordeste, o mestre Adelmo Arcoverde transforma décadas de pesquisa e ensino em um método dedicado à viola nordestina. Organizado com a colaboração de Laís de Assis, o livro aproxima exercícios técnicos, história do instrumento e vocabulário musical da cantoria de repente. Um caderno de partituras reúne obras do autor, arranjos de canções de Luiz Gonzaga e transcrições de melodias da tradição dos cantadores.

O livro se organiza em duas partes. Na primeira, Adelmo Arcoverde aborda a história e a formação da viola tocada no Nordeste, suas relações com a cantoria de repente e os fundamentos de seu método de ensino, acompanhados de exercícios. A segunda parte reúne partituras de composições próprias, arranjos de canções de Luiz Gonzaga e transcrições de melodias ligadas aos gêneros da cantoria.

Arcoverde também aproxima as escalas utilizadas por violeiros e repentistas dos modos musicais antigos. Ao reunir conhecimentos desenvolvidos ao longo de décadas de pesquisa, prática e ensino, propõe um caminho de estudo atento tanto à técnica quanto à tradição musical nordestina.

Ficha técnica: Adelmo Arcoverde, Viola do Nordeste – Da Cantoria à Viola Progressista; colaboração na organização: Laís de Assis; lançado em 2022; 258 páginas. Editora e ISBN não confirmados.


Reinaldo Toledo: 11 Estudos para Viola Caipira

Em 11 Estudos para Viola Caipira, Reinaldo Toledo, violeiro mineiro bacharel em Música pela Universidade Federal de Uberlândia, faz do repertório um caminho para o aprendizado. Criadas a partir de sua experiência como professor, as peças trabalham recursos técnicos sem separá-los da prática musical. Polcas, cateretês, pagodes caipiras, baiões e choros paulistas oferecem diferentes situações de estudo e convidam o violeiro a desenvolver a técnica enquanto amplia seu contato com esses gêneros.

A edição anunciada para as afinações Cebolão em Mi e Rio Abaixo permite estudar esse repertório em duas configurações da viola. Mais do que uma sequência de exercícios, o livro propõe peças para tocar, ouvir e aprimorar: cada estudo tem valor musical próprio, ao mesmo tempo que apresenta desafios úteis à formação do instrumentista.

Cabe destacar que há também um álbum de Reinaldo Toledo com os estudos gravados, intitulado 11 Estudos para Viola Brasileira.

Ficha técnica: Reinaldo Toledo, 11 Estudos para Viola Caipira; edição para as afinações Cebolão em Mi e Rio Abaixo; ISBN 978-65-983113-0-8.


Harmonia e improvisação

Marcos Mesquita: A arte e o ofício de ser violeiro

O mestre violeiro e compositor Marcos Mesquita vem formando alunos há décadas, e muitos deles se destacam no universo do instrumento. Fruto de sua trajetória como músico e professor, A arte e o ofício de ser violeiro propõe um estudo progressivo da viola caipira, dos fundamentos do instrumento à improvisação. O método articula escalas, formação de acordes e harmonia nas afinações Cebolão e Rio Abaixo, buscando dar ao violeiro ferramentas para compreender — e não apenas reproduzir — os caminhos melódicos e harmônicos da viola. A edição de 2019 é acompanhada de dois CDs com exemplos e bases para a prática da improvisação.

O extenso livro, com impressão irretocável, é dividido em seis capítulos. O percurso começa pelos conhecimentos preliminares e segue para escalas, formação de acordes e harmonia — incluindo tríades, tétrades e campo harmônico —, até chegar à improvisação e às sequências harmônicas. A proposta é fazer o estudante entender as relações melódicas e harmônicas da viola, em vez de depender apenas de desenhos prontos de acordes. Além disso, o livro é construído com as afinações Cebolão em Mi, Cebolão em Ré e Rio Abaixo, algo muito importante no universo do instrumento: não segregar o aprendizado por afinações.

Ficha técnica: Marcos Mesquita, A arte e o ofício de ser violeiro; Brasília: Estação Brasileira, 2019; ISBN 978-65-80903-00-9.


Letícia Leal: Harmonia Funcional aplicada à Viola Brasileira

Em Harmonia Funcional aplicada à Viola Brasileira, a violeira da nova geração Letícia Leal propõe um caminho de estudo da harmonia a partir da própria viola em afinação Cebolão. Dividido em três etapas, o e-book apresenta fundamentos de teoria musical, mapeia intervalos, acordes e escalas no braço do instrumento e chega ao estudo da harmonia funcional. Lançado em 2024, o material também ganhou uma versão integral em audiobook, ampliando o acesso de pessoas com deficiência visual ao conteúdo.

O livro se divide em três partes: uma introdução à teoria musical, com os fundamentos necessários para estudar harmonia; um mapeamento do braço da viola, voltado à execução de intervalos, acordes e escalas; e o estudo da harmonia funcional propriamente dita, apoiado na base teórica e instrumental construída nas duas etapas anteriores.

A proposta responde a uma lacuna específica: estudar harmonia funcional tendo a viola, e não o violão ou o teclado, como instrumento de referência. A linguagem é simples e acessível, mas o percurso procura formar uma compreensão prática do instrumento, isto é, localizar e relacionar intervalos, escalas e acordes no braço da viola antes de avançar às funções harmônicas.

Ficha técnica: Letícia Leal, Harmonia Funcional aplicada à Viola Brasileira; 2024; ISBN 978-65-00-92628-6.


Ouvir, ler & pontear

Essas publicações não tentam fixar uma única maneira de tocar viola. Seus autores partem de repertórios, afinações, experiências de ensino e perguntas diferentes, e é justamente essa diversidade que torna a biblioteca do instrumento mais interessante. Quando um ponteio ganha partitura, um estudo ganha gravação ou uma prática de mestre se transforma em método, abre-se uma nova oportunidade de transmissão. A viola continua a ser aprendida com o ouvido, com as mãos e com outras pessoas; os livros acrescentam mais um lugar para esse encontro acontecer.


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